Pais analógicos e filhos ciborgues digitais

Por Julia Ramalho Pinto

Os pais de um adolescente de 13 anos buscam um atendimento psicológico para seu filho. Na consulta inicial os pais apresentam a demanda deles: “Nosso filho está tendo dificuldade de acordar de manhã, vai com muito sono para escola, dorme na aula e não consegue prestar atenção”. Exploro um pouco mais a demanda, a estória e a rotina do adolescente. Descubro que ele não tem horário para dormir. Embora os pais digam para o filho dormir, ele fica até as três horas da manhã jogando na internet. Este é apenas um dos muitos casos onde o mundo digital coloca novos hábitos e comportamentos para as crianças e os adolescentes. O que fazer em uma situação dessa?

A maioria dos pais analógicos funciona olhando para o retrovisor, se referem o tempo todo ao mundo que viveram. Acreditam que tem um saber pronto sobre como funciona o mundo. Se posicionam como “doutores na vida”, verdadeiros mestres, acreditam que sabem tudo que é bom para o filho. E mais, acreditam que podem antever tudo que vai acontecer se seu filho fizer isto ou aquilo. Esquecem de perguntar: que mundo é este que meu filho vive? Quem é meu filho? Para estes pais, a solução é clara: deve-se impor regras e proibir que o filho use os jogos.

Outros pais analógicos acreditam que também sabem tudo, fazem da vida que tiveram um espelho ao reverso para a vida que os filhos devem levar. Se viveram sob regras fortes e sob muitos “nãos dos pais” acreditam que tem que dizer “sim” para tudo de seus filhos. Embora essa posição pareça muito diferente da anterior ela se baseia no mesmo princípio: eles sabem como as coisas são, sabem o que deve ser feito! Se acreditam que sofreram com tantos “nãos”, com a vida mais difícil e regrada, seus filhos tem que ter todas oportunidades que não tiveram, todos brinquedos, todas necessidades satisfeitas. A solução passa a ser o ”sim” para tudo!

Então, que lugar para os pais nesta regulação das demandas do adolescente?

Dizer não para tudo não permite que o jovem se arrisque, que aprenda com os próprios erros, que encontre o que é seu jeito de funcionar e ser. A adolescência é marcada por um momento de expansão e abertura. O corpo do adolescente, despertado pela puberdade, pulsa em busca de novas experiências, novos valores e novas escolhas. Simplesmente “pesar a mão na repressão” não ajuda, ao contrário, muitas vezes provoca um colapso.

Por outro lado, se este adolescente vive intensamente a deriva de seu excesso pulsional, este excesso que o move para zonas de risco que o faz experimentar tudo, a qualquer custo e agora, o jovem pode encontrar o pior.

Talvez a ideia não seja exatamente proibir e nem permitir tudo que ele quer. A posição dos pais pode fazer da urgência dos desejos do adolescente um vacilo no imperativo do “preciso isto: agora!”. Os pais podem funcionar assim como um “grilo falante” que provoca com questões e boas perguntas.

Se os ciborgues adolescentes tendem a ser dragados para o mundo digital, o pais podem lançar cordas e ajuda-los a submergir de suas compulsões. Não com proibições, mas com novas questões onde o adolescente possa se responsabilizar pelo o que quer. Como exemplo: “meu filho você reparou que a medida em que tem dormido tarde você tem mais dificuldade de acordar?” “O que você acha que acontece a medida em que não acorda disposto para a aula?” A ideia aqui é que os pais possam ajudar a desenvolver o senso crítico desse jovem. Mais do que saber o que deve ser feito, afinal muitas vezes não sabem mesmo, eles podem ser aliados para provocar a reflexão.

É urgente que os pais entendam que mais do que um ”GAP”, abismo entre gerações, estamos vendo surgir um jovem adolescente com outra lógica de funcionamento. Mudar do analógico para a digital e da digital para a analógico não é coisa simples! É necessário um conversor, ou melhor, um bom conversador.

Sem essas conversações os pais analógicos não serão capazes de acessar os filhos ciborgues digitais. Para isto, é preciso disponibilidade de tempo para ouvir, um bom repertório de perguntas, curiosidade e abertura, nada mais. Se a travessia da adolescência é delicada e não sem riscos, é preciso que os pais possam ser um suporte, que é diferente de quererem ser o norte.

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