O adolescente ciborgue digital

Júlia Ramalho Pinto

O adolescente é um ciborgue digital? Alguns números disponíveis em pesquisas parecem mostrar que a resposta é sim. Eles são, cada vez mais, seres humanos integrados com suas máquinas, os smartphones ou tablets. E hiperconectados com a internet. Vamos aos dados gerados por duas pesquisas, realizadas pela TIC Kits, do Comitê Gestor da Internet do Brasil, 2015, e da Amdocs, multinacional da área de tecnologia:

Os jovens brasileiros são o mais dependentes das redes sociais:

  • 88% dos jovens brasileiros gostariam de ter um dispositivo conectado à rede mundial de computadores dentro do próprio braço.

Aliado ao dado inicial acrescenta-se que a maioria desses jovens afirmou que fora do seu mundo virtual, se sente só. Sendo que:

  • 64% checam as redes quando acordam

  • 81% dos usuários da internet de 9 a 17 anos acessam a rede todos os dias ou quase todos os dias.

  • 68% dos adolescentes ficam ansiosos e solitários quando estão sem internet.

  • 82% acessa do celular, 56% do computador, 32% do tablet. O acesso está no bolso e à mão.

  • 55% possuem smartsphone. Por isso acreditam que ficam mais espertos e legais

E, se ouvimos bem, o significante "smart", palavra inglesa que equivale a inteligente e esperto em português, é deslocado do telefone para o seu proprietário. Ou seja, ao ter um smartphone o jovem se sente um smart guy, um jovem esperto e inteligente.

Na definição da própria internet (Wikipedia), Ciborgues reais seriam pessoas que utilizam tecnologia cibernética para reparar ou superar deficiências físicas e mentais em seus corpos. O que percebemos é que, ao afirmarem que precisam de seus smartphones para viverem e ampliarem sua inteligência, os jovens estão se tornando ciborgues. Perspectiva também defendida por Amber Case e Sherry Turkle, duas estudiosas de questões sobre tecnologias e comportamento humano.

Falar de adolescentes e internet é, antes de tudo, um grande desafio. Primeiro, porque a própria adolescência é um período sem uma delimitação clara de tempo. Segundo, porque é,.segundo o psicanalista Lacadée, “a mais delicada das transições”. Terceiro, porque todo este ambiente de internet é ainda muito novo.

O Windows 95 trouxe nossa conexão com a internet e o Google, o grande deus que tudo sabe, é de 98/99, e apenas em meados do anos 2000 vimos surgir as redes sociais digitais como: Facebook, 2004, Youtube 2005, Twitter 2006, What’s up 2009, Google + 2011 e Snapchat 2013. E, justamente com as redes sociais que há uma aceleração da inclusão dos jovens neste mundo digital.

Esses adolescentes são a geração que está fazendo toda a sua travessia para a vida adulta imersos na internet. Não temos outra geração com esta experiência, é sem precedente.

O adolescente é este sujeito de 10 a 20 anos (segundo Organização Mundial de Saúde) e que tem seu corpo despertado pela puberdade. Um corpo que pulsa e vive um excedente de sensações e tensões e que trazem consequências pisocobiosociais.

A adolescência, este período frágil e delicado, é o momento de se separar da autoridade parental, um processo necessário e ao mesmo tempo doloroso. O adolescente tem que dar conta de sua herança subjetiva da infância, formas que se posicionou na relação familiar: o filhinho da mamãe, a boneca do papai, o que não aprendia, o que era atentado, o que era desatento e por ai vai. Cada um, a seu modo, revive isto tudo na adolescência. Ao mesmo tempo, tem que lidar com os impasses do seu encontro com o desejo sexual e se auto afirmar no meio social.

Esses impasses são vividos por que ele não tem um saber pronto para lidar com a diferença sexual e precisa encontrar uma forma de inscrever seu ser. É difícil nomear a si próprio e traduzir em palavras o enigma da existência.

Antoine Tudal, citado por Lacan, ilustra bem esta ideia do impasse vivido neste campo sexual: “Entre o homem e a mulher há o amor, entre o homem e o amor há o mundo, entre o homem e o mundo há um muro”. Podemos dizer, mesmo, que entre o homem e a mulher há sempre um muro e que através do amor criamos e inventamos formas para lidar com nossas diferenças.

Freud definiu a pulsão sexual como algo que está entre o mental e o corpo. Ela é um representante dos estímulos que surgem no corpo e que vai além do instinto. Não há um caminho natural para a sexualidade humana, não há uma maneira única de se satisfazer o desejo.

Na adolescência há um excesso pulsional vivido pelo jovem. E este, na maioria das vezes, não encontra palavras para traduzir o que acontece no corpo e nos pensamentos. Ele fica entregue a um impossível: o que dizer, o que fazer, como elaborar isto que ele vive?

No melhor dos mundos, é fazer bom uso da palavra e da criação. Se a adolescência é o desregramento de todos os sentidos, então um boa travessia da adolescência é encontrar um bom contorno para o desejo.

Já a má travessia seria encontrar com a adição, se manter neste excesso pulsional, ou seguir entregue ao que chamamos de curto-circuito do gozo. Freud chamou a puberdade de uma metamorfose que vai se dar não sem correr riscos.

Neste sentido, o adolescente rodeia e brinca com o perigo o tempo todo. Podemos citar dentre eles: transgressões sociais, transtornos alimentares, fugas, velocidade e adrenalina, e até mesmo o suicídio. Há, ainda, toda forma de compulsão e adição como a toxicomania e o alcoolismo. E há também a Hiperconectividade digital, excesso este tipicamente vivido pelo adolescente ciborgue digital. Um risco ainda desconhecido por muitos e que aumenta cada dia uma vez que a amostra dos jovens de 15 a 17 é conclusiva sobre a inclusão e conectividade deles: 95% destes jovens estão na internet!

Se o adolescente de hoje é um ciborgue digital hiperconectado, como cremos, não se trata apenas de entende-lo a partir de seus novos objetos de busca. A questão agora talvez seja investigarmos como esta fase delicada, vivida de forma on-line, altera a própria noção do que entendemos do adolescente. Haveria alguma mudança?

Na próxima semana iremos falar dos paradoxos vividos por este adolescente.

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