Como pais atrapalham as escolhas dos filhos

Por Carlos Teixeira

Pais analógicos olham o mundo pelo retrovisor, não para o futuro! Mesmo que eles acreditem ter ótimas intenções. Pesquisas no Brasil e no exterior confirmam os riscos da excessiva intervenção na escolha profissional. Do alto das experiências individuais no mundo adulto, os progenitores tendem a orientar os jovens, muito jovens, por sinal, a preferir carreiras que eles consideram seguras, a partir da suposição de que terão oportunidades de trabalho garantidas.

Adultos movidos por certezas não percebem os efeitos negativos que podem gerar. Basta que se encare pelo menos duas variáveis: primeiro, o elevado índice de evasão nos cursos universitários e, em segundo, a frustração de quem descobre que errou de profissão após poucos anos de formado. Estudo conduzido pela Giacometti Comunicação e Pesquiseria com adultos de 30 anos, que cursaram o ensino superior, mostrou que 45% dos pesquisados tinham dúvidas sobre o acerto de suas escolhas profissionais. Outros dados disponíveis revelam a excessiva infelicidade de trabalhadores com suas rotinas produtivas.

O problema pode estar no processo de escolha, entre outros fatores. Um estudo da Universidade Anhembi Morumbi mostrou que a família é o fator que mais influencia os jovens na hora de escolher a profissão. Dos 31 mil estudantes do 3º ano do Ensino Médio que responderam a pesquisa, 35% consideraram a família como o fator mais importante. Os profissionais das áreas profissionais foram apontados como fator de influência por 34%; a remuneração, por 17%; e a experiência profissional, por 13% dos jovens.

Segundo outro estudo, realizado na Grã-Bretanha, 54% dos adolescentes disseram que os pais tentaram intervir em suas escolhas e 69% quiseram definir a universidade onde eles iriam estudar. Participar não é um problema, reconhecem os pesquisadores. E os próprios filhos confirmam. Para eles, a família tem, sim, um papel essencial nas escolhas profissionais.

Equivocado é o fato de que há uma tendência em deixar o diálogo, a informação e a curiosidade em segundo plano. Apenas 27% dos 3 mil estudantes que participaram da pesquisa britânica disseram que seus pais haviam discutido alternativas à universidade com eles, enquanto 76% dos pais disseram que não sabiam onde encontrar informações on-line sobre alternativas para a universidade.

Não é sem razão que, em Mostras de Profissões, como a realizada pela Universidade Federal de Minas Gerais, em setembro, as palestras mais concorridas são as dos cursos de medicina, direito e engenharia. Respostas baseadas em crenças passadas podem ser um grande engano, reconhecem os pesquisadores. A pesquisa alerta que a zona de aparente conforto pode tirar do jovem a oportunidade de se arriscar em alternativas que estão sendo criadas pela revolução tecnológica e social, inclusive de arriscar em profissões diferentes.

A família, focada em suas experiências passadas e no modo de pensar analógico, induz à rejeição de escolha de cursos incluídos em uma cesta de “profissões lternativas” -- uma lista que inclui atividades que, na lógica do senso comum, não abrirão portas para o sucesso financeiro. Música, artes, publicidade e filosofia são alvos de sutis ataques das pessoas que associam a realização pessoal à felicidade com o reconhecimento externo ou ganho de dinheiro. De algum modo, refletem suas percepções às experiências pessoais. Seres analógicos são herdeiros das buscas que passam longe da descoberta de caminhos para a felicidade pessoal.

As pesquisas também confirmam que os pais estão muito mal informados sobre as novas profissões, campos de trabalho que estão surgindo e áreas que oferecem maiores oportunidades. Segundo um estudo global do banco HSBC, 90% dos pais pensam em uma profissão específica ao oferecer conselhos para os seus filhos. A metade induz à escolha de engenharia (19%), medicina (18%) e direito (12%). Ser funcionário público também integra a lista prioritária de indicações. Aliás, a busca por direito tem como uma das explicações o culto ao trabalho em órgãos da gestão pública.

Segundo o HSBC, desde o ensino infantil os pais já têm em mente o encaminhamento para uma profissão específica. E quanto mais o filho evolui na educação básica formal, maior a tentativa de influência exercida pelos seus pais. As concepções tradicionais se refletem inclusive na questão de gêneros. Pais tendem a sugerir engenharia mais para os homens do que para as mulheres.

Olhando para o futuro, o relatório observa que as inovações em tecnologia digital são um motor essencial da mudança socioeconômica. A sociedade precisa focar em investigações aprofundadas sobre o papel atual e futuro das tecnologias digitais na vida dos jovens - em casa, na escola, para as suas relações sociais, e seu trabalho futuro e lugar na sociedade. Jovens e seus pais precisarão aprender a mudar o foco. Os adultos tentando entender os efeitos da digitalização, da busca por modelos que os adolescentes digitais já estão naturalmente adotando.

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