O paradoxo do mundo virtual como realidade: o que vem por aí

Por Carlos Teixeira

O desenvolvimento de novos sistemas de interação à distância, como a holografia, promete tornar extremamente tênues as linhas que separam o real do virtual na mente dos jovens definidos como "adolescentes ciborgues digitais". Saltos são esperados para máquinas e sistemas de realidades virtual e aumentada, culminando com a adoção massificada, em breve, da holografia. Inovações já existem. Como o recém-lançado Hololens, da Microsoft. Mas o amadurecimento de produtos comerciais deve ocorrer a partir de 2020, coroando a entrada na fase adulta dos nascidos em 2000.

O sistema, que projeta imagens dinâmicas como fotografias em terceira dimensão, possibilita maior sensação de presença. Realiza o sonho da telepresença, de uma percepção de que seja possível se projetar ou ter pessoas projetadas diante de si, como imagem próxima, sem o uso de suportes, como os óculos de realidade virtual. Os desenvolvedores das tecnologias já vivem a sensação de trafegar em Marte ou até pelo Universo. Ou de participar de uma mesma palestra em três locais ao mesmo tempo.

Pense bem como o mundo mudou em menos de meio século. Nos anos de 1970, famílias mais abonadas faziam intercâmbio enviando os seus filhos para passarem um semestre, preferencialmente, nos Estados Unidos. Intercambistas e suas famílias estavam isolados em dois polos opostos do mundo -- na verdade, mesmo quem estava a uns 100 quilômetros de casa, passando férias na fazenda de um tio no interior, se sentia praticamente sem qualquer contato com seus parentes “distantes”. Menos de 50 anos atrás, telefonemas interurbanos ou internacionais, assim que eram chamados, dependiam de hora marcada e da intervenção de uma telefonista para completar a ligação.

Hoje, com a “pouca” tecnologia disponível, é possível ter contato diário e por imagem com qualquer pessoa pelo computador, seja alguém no deserto da Austrália ou no quarto ao lado. Os jovens estão na fase de transição em que as conversas não dependerão mais de Skype ou Hangout, do Google. O parente no deserto australiano será projetado a qualquer momento. Alex Kipman, cientista brasileiro, principal criador das tecnologias Kinect e Hololens, para a Microsoft, vibra com a ideia de que as pessoas romperão com a percepção de que vivem em ambientes analógicos. “Nosso universo é analógico”, afirma. A evolução da tecnologia será, segundo ele, capaz de romper a dependência da dupla dimensão de tempo e espaço rumo a vivências na terceira dimensão.

A ampliação do 4o paradoxo do adolescente ciborgue digital.

Voltando ao 4o paradoxo do adolescente ciborgue digital, com a experiência do Ingress e do Pokemon Go, dois destaques do momento, começamos a aprender como a interação entre os mundos virtual e real pode ser o grande conector da onda de produtos que vão manter os jovens em nova dimensão, como os games e o estabelecimento de novas formas de comunicação. Com a expansão da realidade aumentada, o jovem terá condições de abrir mão de ir à rua para caçar e colecionar seres digitais ou mesmo se relacionar.

Teremos, então, o que o Second life prenunciou, um avatar para representá-lo. Em alguma medida, ele pode até mesmo poderá abrir mão de sua condição de ciborgue -- sem corpo humano, exclusivamente tecnologia -- para adotar sua imagem como digital. Não preciso ser alguém, pois tenho um “ser” que me representa.

“Por que as telas estão tão presentes na nossa vida analógica?”, pergunta o cientista Alex Kipman em uma palestra apresentada TED, ciclo de paletras de inovadores de todo o mundo. “Acho que é porque o computador nos dá superpoderes”, reponde. Nós, usuários, vemos telas do momento em que acordamos até o momento de dormir. Com competências adicionais, dentro do universo digital, absorvemos a capacidade de deslocar o espaço e o tempo. “Não importa se usamos a tecnologia para diversão, trabalho ou comunicação”, assinala.

Quanto mais poder, mais ausente de si mesmo. Não será necessário nos deslocar até em casa para assistir um programa favorito de televisão. Assim como não precisamos mais ir à Austrália para encontrar o filho que foi fazer intercâmbio”.

Alex Kipman tem a sensação de que a espécie ganha um superpoder formidável, ao sentir que pode teletransportar um lugar ou uma pessoa, a qualquer momento ou lugar. Imagine a possibilidade de alternar nosso ambiente entre os mundos real e virtual. Quando a tecnologia compreender verdadeiramente o mundo, nós transformaremos novamente a forma como interagimos, como trabalhamos e como brincamos.

Nem todo mundo encara com tamanho fascínio tais possibilidades. O cientista brasileiro Miguel Nicolelis revela preocupação com o modo como a tecnologia pode ser incorporada ao cotidiano, com impactos negativos. “Nós estamos condicionando nosso cérebro ao uso de tecnologia ao longo da vida, e como ele é extremamente adaptável, passa a imaginar que o que vale a pena, como os prazeres sociais e financeiros, se comporta também como um sistema digital. O continuo contato digital, por exemplo, leva a alienação social dos indivíduos”, disse.

“Um grande risco é que a condição humana está sendo moldada pelas nossas interações digitais modernas. A tecnologia deve ser usada para melhorar a vida no planeta e para a felicidade plena, mas esse modelo de hoje coíbe a criatividade, as expressões artísticas e a comunicação.” A questão de imagem e representação deverá ser cada vez mais estudada para conhecermos este novo ser? Se nos projetarmos ou recebermos projeções, poderemos viver como um avatar? A possibilidade de isolamento do real se consolida? Essas são algumas perguntas que imagino que serão cada vez mais pertinentes.

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